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25 mil pequenas trutas devolvem vida ao rio Âncora
Ação de conservação estratégica implementada pelo ICNF, com a colaboração do Município de Viana do Castelo
Por Administrador
Publicado em 15/04/2026 13:03
Notícia

25 mil pequenas trutas devolvem vida ao rio Âncora
Ação de conservação estratégica implementada pelo
ICNF, com a colaboração do Município de Viana do Castelo

O rio Âncora recebeu um novo impulso de vida com a libertação de cerca de 25 mil

alevins de truta fário, capturados no seu troço superior, na vertente ocidental da Serra

de Arga, numa iniciativa do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas

(ICNF), em colaboração com o Município de Viana do Castelo e com as Juntas de

Freguesia locais.

Estes pequenos peixes descendem de trutas do próprio rio Âncora, garantindo a

preservação das características genéticas da população local e potenciando a

probabilidade de sobrevivência dos alevins libertados. A largada foi realizada em oito

locais diferentes ao longo do rio, escolhidos por oferecerem as melhores condições

ecológicas para que estas trutas cresçam e sobrevivam.

Num ponto de largada da zona média do Rio Âncora, o Eng.º António Martinho,

técnico superior do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas, explica o

processo da ação de conservação ex-situ em detalhe:

“Os reprodutores foram capturados no rio Âncora, designadamente no seu troço

superior, na freguesia de S. Lourenço da Montaria, e mantidos em cativeiro no Posto

aquícola do Torno (Ansiães, Serra do Marão, Amarante), num processo de adaptação

inicial muito exigente. A primeira progénie de truta-de-rio proveniente do rio Âncora foi

produzida em 2023, tendo sido então introduzidos cerca de cinco mil exemplares. No

ano seguinte, foi possível reforçar essa intervenção com mais 15 mil, repetindo a

mesma metodologia. As ações não têm de ocorrer exatamente nos mesmos locais, é

sobretudo importante garantir uma boa distribuição ao longo do rio. No entanto, os

melhores resultados verificam-se nas zonas onde a qualidade da água é mais elevada,

nomeadamente nas fases superior e intermédia do rio. À medida que nos aproximamos

do litoral, onde o rio se torna menos declivoso e mais próximo da foz, as condições

tendem a ser menos favoráveis, o que se reflete em menores taxas de sucesso. Isto

acontece porque estamos a introduzir ovos e alevins em ambientes que podem causar

algum stresse ao seu desenvolvimento. Pelo contrário, em zonas com elevada

qualidade ecológica, como esta, encontram-se condições ideais para o crescimento da

espécie.”

Fabíola Oliveira, Vereadora do Ambiente do Município de Viana do Castelo, destaca

a importância crucial desta articulação interinstitucional, envolvendo a Câmara

Municipal e as Juntas de Freguesia locais. Expressou “total disponibilidade do

Município para aprofundar a estreita colaboração com o ICNF, em três dimensões

fundamentais: - na concertação de estratégias de gestão dos habitats e ecossistemas

ribeirinhos e aquáticos; na disponibilização de meios técnicos, estruturas e

equipamentos de apoio à investigação e monitorização e na promoção da

sensibilização e educação ambiental, em proximidades com as populações.”

Esta ação insere-se numa estratégia de conservação mais ampla, sustentada em

conhecimento técnico-científico e monitorização no terreno. Como explica o Eng.º

António Martinho: “Em 2022 realizámos no rio Âncora trabalhos de amostragem que

serviram de base às decisões de gestão implementadas em 2024, nomeadamente à

criação da zona de pesca lúdica. Estes trabalhos incluíram a monitorização das

espécies piscícolas e avaliações hidromorfológicas através do método River Habitat

Survey, amplamente reconhecido no âmbito da Diretiva Quadro da Água. Foram

estabelecidas sete estações de amostragem ao longo curso principal do rio Âncora,

cada uma com uma extensão de 500 metros, onde foram recolhidos dados biométricos

das comunidades piscícolas, de avaliação hidromorfológica e alguns parâmetros físico-

químicos da água que, depois de analisados, sustentaram decisões concretas de

ordenamento e gestão.” Acrescenta que “atualmente, o rio encontra-se organizado em

dois troços de pesca lúdica. Neste local [antigos Viveiros Florestais da Montaria], por

exemplo, estamos num troço de pesca sem morte — uma prática mais sustentável dos

recursos explorados, que obriga à devolução ao rio dos peixes capturados, utilizando

anzóis sem barbela para minimizar os danos. No futuro, caso se verifique um aumento

significativo das populações, poderá ser equacionada a abertura controlada à pesca

com retenção de algumas capturas, obedecendo, no caso específico das trutas, a um

tamanho mínimo de 20 cm.”

Esta abordagem integra-se num modelo de conservação desenvolvido pelo ICNF, que

gere atualmente 20 stocks de reprodutores de truta-de-rio (Salmo trutta),

representativos da genética de boa parte do Norte de Portugal. A metodologia

aplicada — baseada na introdução de alevins em fases precoces — tem demonstrado

resultados muito positivos. Um exemplo disso ocorreu no Parque Natural do Alvão,

onde, após ações semelhantes iniciadas em 2016, a truta passou de espécie residual a

dominante em vários troços do rio Olo.

Num contexto de crescente pressão sobre os ecossistemas aquáticos e ribeirinhos —

desde a poluição, à pesca excessiva e a outros fatores de degradação dos habitats,

potenciados pelas alterações climáticas — a truta fário, espécie emblemática dos rios

de montanha, assume um papel fundamental enquanto indicador da qualidade da

água e do estado ecológico dos rios.

A largada de alevins no rio Âncora representa, assim, uma medida ativa de reforço das

 

populações piscícolas, contribuindo para a recuperação de efetivos naturais, o

aumento da biodiversidade e a promoção da sustentabilidade dos ecossistemas

aquáticos.

Estas ações assumem também impacto positivo na valorização do território,

 

nomeadamente ao nível do turismo de natureza e da pesca desportiva sustentável.

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