Diplomada da Universidade Politécnica de Viana do Castelo regressa a casa 21 anos depois. Exposição será inaugurada a 30 de outubro, às 17h, no Centro Académico
“Moça da Ribeira” estreia exposição e leva o legado do Minho à UNIPVC
Não desenha rostos. Prefere que sejam os trajes a revelar de onde vêm as pessoas, as histórias que transportam e as comunidades a que pertencem. Teresa Silva, de 47 anos, natural da Ribeira, em Viana do Castelo, regressa à instituição onde se formou em 2005 para apresentar “Filha do Minho: Arte e Legado”, uma exposição de ilustração e etnografia que será inaugurada a 30 de outubro, às 17h, na Oficina Cultural, no edifício dos Serviços Sociais da Universidade Politécnica de Viana do Castelo (UNIPVC), onde ficará patente até janeiro de 2027.
Nas ilustrações de Teresa Silva, as mulheres não precisam de mostrar o rosto para revelar a sua identidade. O protagonismo pertence aos trajes, às suas cores, aos bordados e aos elementos que permitem reconhecer uma freguesia, uma tradição ou uma comunidade. Mais do que representar quem os veste, a ilustradora procura recuperar aquilo que cada traje conta sobre o lugar de onde vem.
A ideia é que alguém possa olhar para uma ilustração e reconhecer imediatamente a origem de quem está representado. Que diga, por exemplo, “esta moça é da Ribeira”, como orgulhosamente gosta que se refiram a si quando está trajada. Para Teresa, o traje não deve servir apenas para destacar a pessoa que o veste. Deve permitir identificar uma história coletiva, construída e transmitida ao longo de gerações.
É também por isso que a ilustradora distingue a “chieira”, tão característica das tradições minhotas, que traduz alguma vaidade e orgulho, do “brio” de preservar e respeitar aquilo que se herdou. O seu trabalho procura ir além da aparência, da beleza e da vontade de mostrar o traje. Procura, sobretudo, valorizar o que ele representa.
“Eu quero que o traje se destaque, porque o traje é um símbolo de pertença de uma freguesia ou de uma comunidade, não de uma pessoa”, explica Teresa Silva.

As mulheres que dão rosto a uma história sem rostos
A exposição é também uma homenagem às mulheres que marcaram a vida de Teresa. À mãe, à avó e à bisavó, cujas histórias e memórias familiares lhe permitiram descobrir um legado que desconhecia. E também à “dona Rosalina Viana”, mulher de tradição e brio, uma figura de referência na preservação dos trajes tradicionais e com quem mantém uma relação de grande proximidade.
Foi durante o período de doença da mãe, natural de Vila Nova de Anha, que Teresa descobriu uma parte da história familiar que até então desconhecia. Através das suas memórias, soube que a mãe, a avó e a bisavó tinham usado o Traje de Morgada, uma indumentária de cor preta, austera e senhorial, associada a mulheres de famílias abastadas. Um traje que não era habitual na Romaria de Nossa Senhora da Agonia e que, por vezes, era confundido com o vestuário das viúvas.
A descoberta levou-a a interessar-se por esta tradição e a começar também a usar o Traje de Morgada. Na exposição, essa ligação familiar estará presente não apenas nas ilustrações, mas também em fotografias da mãe e da avó, recordações e no próprio traje que Teresa está a bordar. “Mulher do Minho sabe bordar”, refere. Uma forma de recuperar e dar continuidade a uma herança que conheceu através das mulheres da sua família.
A “dona Rosalina”, como tão carinhosamente lhe chama, ocupa um lugar especial neste percurso. Embora não exista entre ambas uma relação de parentesco, Teresa fala dela como alguém da família. Foi precisamente esta mulher de quase 84 anos, com quem partilha o interesse e o respeito pelo traje tradicional, que escolheu para a imagem que identifica “Filha do Minho: Arte e Legado”.
A escolha traduz uma das ideias centrais da exposição: as tradições sobrevivem através das pessoas que as conhecem, preservam e transmitem. E, mesmo quando os rostos não aparecem nas ilustrações, as mulheres e as suas histórias continuam presentes.
Da Escola Superior de Educação à primeira grande exposição
Teresa Silva nasceu na Ribeira, viveu parte da infância no centro de Viana do Castelo e regressou mais tarde ao bairro onde nasceu. Em 2005, concluiu o curso de licenciatura em Professores do 1.º Ciclo do Ensino Básico, variante Educação Visual e Tecnológica, na Escola Superior de Educação (ESE-UNIPVC).
Seguiu a profissão para a qual se formou, tendo exercido a docência durante vários anos, incluindo sete nos Açores. Apesar de desenhar desde criança, recorda-se de que, aos três anos, os lápis e o papel eram as prendas que mais desejava, não imaginava que a ilustração viesse a ocupar um lugar tão importante na sua vida, muito menos que regressaria à instituição onde estudou para apresentar uma exposição.
O trabalho que agora reúne começou a ganhar forma há cerca de três anos, num período pessoal difícil, em que a ilustração surgiu também como uma forma de encontrar equilíbrio. Inicialmente, desenhava por gosto, inspirando-se nos antigos cartazes ilustrados da Romaria de Nossa Senhora da Agonia, que coleciona.
Aos poucos, começou a partilhar as ilustrações nas redes sociais. As reações não tardaram e, com elas, chegaram também os primeiros pedidos. O interesse foi crescendo e levou-a a explorar outras festas, freguesias e tradições, procurando conhecer os trajes e compreender as diferenças entre comunidades.
O desenho deixou de acontecer apenas no ateliê. Teresa começou a visitar romarias, a conversar com as pessoas e a investigar a origem das peças que representava. O resultado é um conjunto de trabalhos que reúne três anos de descobertas, experiências e memórias.
O regresso à UNIPVC tem, por isso, um significado particular. Teresa confessa que nunca imaginou esta possibilidade quando terminou o curso e destaca o acolhimento que encontrou na instituição, depois de ter procurado outros espaços para apresentar o seu trabalho. Pela ligação às artes e à formação que recebeu na Escola Superior de Educação, a Oficina Cultural surgiu como o local onde gostaria de concretizar este projeto. Regressa agora enquanto antiga aluna, para partilhar um percurso artístico que não imaginava seguir quando deixou a Universidade, há 21 anos.

A identidade também está nas pequenas coisas
Embora os trajes tradicionais ocupem um lugar central, “Filha do Minho: Arte e Legado” não se limita à representação da indumentária minhota.
As vivências de Teresa em Viana do Castelo estão presentes em ilustrações que recuperam episódios da infância, lugares e instituições que fizeram parte do seu quotidiano. Uma dessas memórias está ligada, por exemplo, à Polícia de Segurança Pública, cuja presença nas ruas da cidade marcou as brincadeiras e experiências da sua geração.
A ilustradora acredita que a identidade de uma comunidade se encontra também nos objetos mais simples: numa peça de louça, num avental, numa camisa bordada ou num pormenor de um traje. Elementos que podem parecer pequenos, mas que guardam histórias e ajudam a compreender a forma como as pessoas viveram e continuam a viver.
É esta perspetiva que Teresa Silva quer partilhar com quem visitar a exposição. Mais do que apresentar o trabalho desenvolvido ao longo dos últimos três anos, pretende que a Oficina Cultural seja um espaço de descoberta, aberto a escolas, estudantes, professores, instituições e à comunidade.
A intenção é também pedagógica. Teresa, que se formou para ser professora, encontrou na ilustração outra forma de ensinar e de despertar a curiosidade sobre as tradições. Já dinamizou oficinas de ilustração etnográfica com crianças e estudantes, incluindo alunos dos cursos de Design da Escola Superior de Tecnologia e Gestão (ESTG-UNIPVC), e participou em atividades promovidas com escolas através da Biblioteca Municipal de Viana do Castelo. Só no último ano, trabalhou com crianças de dez escolas.
A experiência mostrou-lhe que a etnografia pode ser explorada de muitas maneiras e que não precisa de ficar limitada às fotografias, aos cartazes antigos ou às celebrações tradicionais. Pode entrar numa sala de aula, transformar-se num exercício de ilustração e levar os mais novos a descobrir o significado de um bordado, de um avental ou das cores de um traje.
Teresa gostaria, por isso, que a exposição fosse também um ponto de partida para outras iniciativas. Está em aberto a possibilidade de realizar workshops, oficinas e ateliers de ilustração etnográfica, envolvendo diferentes públicos e instituições, dando continuidade ao trabalho de divulgação e valorização do património cultural.
A inauguração de “Filha do Minho: Arte e Legado” realiza-se a 30 de outubro, às 17h, na Oficina Cultural, situada no edifício dos Serviços Sociais da UNIPVC, em Viana do Castelo, onde estará patente até janeiro de 2027. Para além das ilustrações, fotografias e elementos do legado familiar, Teresa pretende reunir na abertura algumas das pessoas e tradições que inspiraram o seu trabalho. Entre elas estará Rosalina Viana, a mulher que escolheu para a imagem da exposição.
Poderá assistir ao vídeo com a entrevista completa em:
https://www.youtube.com/watch?v=5QhoupjVx6c